VIAJANTE DO AMOR - PARTE 13

A CASA

No caminho, descendo a velha escada, encontrei a lamparina acesa. Os calos em meu pés, gastos de caminhar, evocavam um sofá.
A minha frente, vestido de solidão, encontrava-se aquele homem, dissolvido de seus ideais e totalmente frágil, sem destino.
O quarto apagado em cima de nossas cabeças, já dizia que nada mais viria a tona daquela escalada sem fim que a vida nos trouxe.
Então, arrumada de brisa, saí pela porta da frente, revestida de sagacidade, dissolvendo de dentro do meu envelope de emoções antigas, todas as histórias que passaram na minha porta. 
E com olhar ainda distorcido, o homem, inquieto, contorcia-se de pecados inteligentes, como um mentiroso que o faz a si mesmo. Olhava-me, querendo pedir, mas seu orgulhoso tentáculo de falsidade, ainda escorrendo de sua boca corrosiva, me indagava o porque de tudo isso.
Então, dando um passo a frente na saída da porta ainda aberta, acenei com um sorriso sarcástico sobre o salto alto vermelho.
Voltei-me ainda, sobrevoando de olhar as escadas rotas, a casa velha, a lamparina do corredor vazio que dava na cozinha, a área de serviço ao fundo, onde no varal estendia-se os lençóis manchados de uma relação infeliz e sem nexo.
E, ali, da entrada daquela porta de madeira sombria, meu cérebro entretorceu-se de fagulhas antigas, das farpas abertas e dos excrementos ditosos daqueles que ainda exalam cheiro de perdição.
O tempo se foi. Atenta, ainda olhando escada acima. Os quartos apagados de solidão maciça sobrevoavam meus pensamentos inquietos pela vastidão de poeira que o ambiente trazia.
Os vidros  de cachaça, de rum nas prateleiras empoeiradas ao lado do homem, naquela sala totalmente impugnante de papéis talhados e remexidos, desarrumados, me faziam ter asco do que me permiti.
Mas, enfim, na porta, atrasada para o voo, fui fechando as estantes dessas imagens estagnadas de solidão. Virei-me a frente e desci as escadas para a rua aberta. 
Lentamente, sentindo a brisa sobre minhas pernas, entrecortando por dentro de minha saia branca e chegando dentro da minha erupção de alma, fui dissolvendo o xale roto, deixei-o cair. 
Minha blusa, branca, entrecortada de um decote fascinante, mostrava rúbia o caminho da perdição entre meus seios quentes.
Ainda, mais uma vez, virando-me para aquela mansão, nada senti, apenas uma sensação de pena de tanto folego para nenhum afago.
Forjando-me a continuar, senti a água levemente descendo sobre meu rosto limpo e a rua estava totalmente brilhante de paz.

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