VIAJANTE DO AMOR - PARTE 1
O SANTINI
Sobre folhas
secas, salpicadas pelo outono, passos leves murmuram o caminho. Sob os olhos
andam e vêm, conversam com as flores espalhadas em seu rumo, deixando caminhar.
Conhecendo a verdade, talvez sem limites do coração, mas são seguidos pela
sombra sem poder, se quer ver.
Sob ele estão
às folhas que cobriram a primavera e o coração, estilhaçado, coberto pela
poeira da explosão, de amor, que em rima e verso confessam a dor, marca de uma
cicatriz profunda, oriunda de um tempo distante, que não se apaga, não acaba.
Suas mãos
tocadas pela busca maçante, se tornam objetos perdidos no seu próprio corpo. No
seu rosto a vergonha, não consegue esconder. E no corpo, o sexo escondido e
terrivelmente exposto em sua cabeça, e em sua face maltratada pelos seus próprios
passos, onde o coração, com a cicatriz totalmente exposta vagueia pelo mundo
tentando translucidar o que já ficou cravado.
São
pedaços de paisagem, que estonteiam e vestem com trapos o viajante do amor, que
na procura intensa percebe refletir sobre si a luz inquietante do futuro
incerto. Não existe remédio para sua dor, somente o tempo poderá curar suas
marcas de tanto amar. E em sua passagem discreta, apesar de muitas vezes cheias
de efeito simbólico para outros, não conseguia enxergar a grande beleza do caos
que sempre provocava quando caminhava frente alguém. Sua estrutura iluminada de
versos, podia alcançar quilômetros de distância, por vias inimagináveis, alcançando corações arredios, que por muitas vezes, sem saber exatamente como,
procuravam sua persona para descobrir algo em si mesmo.
O
destino lhe entregou uma chave, que ninguém poderia imaginar ter. Foi então que
um dia, este ser no seu mistério de existir, encontrou sua mais perfeita conjunção.
Sentado em um parque natural, onde
árvores enormes, uma piscina de água natural imensa, sons de pássaros e das
águas cobre a vastidão deste ambiente, estava lá, embriagado com seus
pensamentos quando, num restante de sol, apareceu esguia e fagueira sua dama.
Numa profunda singeleza natural do caminhar, ela trazia consigo sua profunda certeza que um anjo lhe apareceria. Irradiando luz, com seus passos
largos e tranquilos, foi passando ao seu lado dissolvendo a imagem refletida de
seu anjo, que sentado ali, encontrava-se tão perto e tão distante de si.
Num
pulsar lancinante ela transformou-se ao ver a miragem deste ser iluminado de
sol, que seu coração não conseguia esconder a intenção de conhecer a
criatura tão intensa de amor. E vagando em seu mais profundo pensar ela pediu com
a profundeza de alma, que se tivesse que o conhecer, se abrisse a porta.
O coração pulsava forte, quando viu aquele ser das estrelas se aproximando de
onde estava, e filmando tudo que ela fazia, cada detalhe ele olhava.
Sentou-se
um pouco distante para observar sua dama, tão profundamente intensa quanto ele.
Já não conseguia perceber sua dor, pela visão que lhe fora dada, e ela
conseguia em flash capturar sua imagem sem dar a entender que o estava olhando.
O momento foi extremo de puro amor no olhar dos dois. Sabiam que se olhavam,
mas não sabia como chegar perto para se conhecerem.
Então
o parque, num saltar de guaxinins, se transformou em festa, perto de uma dessas
lixeiras organizadas onde ela estava a tomar sol, e todos vieram para retratar
em suas imagens fotográficas os animais. Assim, ele aproveitou-se para se
achegar onde ela estava e começou a olha-la, de perto, tentando
introduzir um assunto, ainda fingindo não olha-la.
Mas
ela sabia que ele a queria conhecer e procurava nela a expressão que antes não encontrou
em ninguém, a expressão de alma para alma, onde num segundo de visão tardia
pode-se perder o amor para sempre. E foi exatamente quando, lado a lado, se olharam de canto de olho. Ele refletindo a vontade e ela a esperança em
conhecê-lo. “Que interessante os animais entrarem nas lixeiras” disse ele a ela
que em seguida falou “ Hoje quando cheguei ao parque tive que parar o carro
para eles passarem”, e assim sorriram um para o outro num olhar de interesse.
O
fascínio continuou dela por ele pela persona exótica que exibia. Vestido
apenas com uma bermuda simples de banho preta e com seus chinelos de dedo
pretos levando sua camisa amarelo claro a mão. Seus cabelos eram longos
partindo do castanho escuro em cima e descendo pelo ombro num branco que parece
ter sido desbotado por tinta e suas pontas amareladas bem no meio das costas.
Sua barbicha e bigode meio cinza agrisalhado e de pouca quantidade lá pelos
seus quarenta e poucos anos.
Ele
gostou dela e começou a querer trocar frases, num diálogo sem nexo, para
conhecê-la. Olhava intensamente sua dama de tipo esguio, com seios grandes,
pernas encorpadas, pés bem feitos e compridos, cabelos curtos, corte moderno e
braços longos, vestindo seu biquíni cinza com estampa floral laranja e branco e,
por cima, um vestidinho curto preto de Jersey com babadinho pequeno ao seu
contorno percorrendo o redor de suas cochas largas e belas.
Ela
já estava decidida a ir embora , o tempo começou a virar e o frio, sempre
intenso, dissolve a expressão do sol no início do inverno na serra, carregando
nuvens que desanimam os turistas e banhistas. Mas ele pediu com avidez: “Fica mais um
pouco, vamos conversar”. Ela, que na verdade queria muito ficar, não podia. Ele
voltou a pedir que ficasse mais um pouco para conversarem, mas ela foi brutal e
fria estranhamente, indo embora por que estava acompanhada de sua mãe. Mas no
tumulto dos animais eles ainda trocaram telefone e endereço de e-mail.
Mas
ele continuava a acompanha-la de perto até onde fosse preciso para novamente
tentar que ficasse ali a conversar com ele. Ele perguntou se havia possibilidade deles se encontrarem ainda naquele dia e ela, subitamente, resolveu combinar de voltar. Portanto, marcaram de para se encontrarem às
seis horas da tarde na entrada do parque, já que ele estava acampado ali.
Ela
se foi e ele ficou a vaguear sem destino pensando na sua amada alma que entonteceu
seus pensamentos numa liberação profunda de amor, campo onde se encontram
flores e rosas e onde podemos vagar sem sentir medo. Ele se dirigiu fazendo uma
longa caminhada para sua barraca e lá ficou há esperar as horas.
Ela
se foi juntamente a sua mãe para resolver sua sentença já feita desde seu
nascimento. No berço já sabia que seu enfrentamento seria estar a entender toda
relação materna nesta viagem da vida. Assim, portanto, na busca de conseguir
retornar ao parque, foi tomar seu banho, almoçou alguma coisa e amedrontou o
coração ao pensar em retornar sozinha para o encontro chamando uma amiga para ir , se sentindo assim mais relaxada.
Ele,
deitado em sua barraca, dormia em seus pensamentos densos feitos uma cortina de
retalhos, ligado em outro mundo totalmente diferente do dela. Mas, na sua
pequena angústia, ainda vislumbrava o sentido de revê-la. Como um sonho ela lhe
aparecia ao pensamento sempre, durante os instantes de horas que vislumbravam o
encontro.
Então
o tempo fechou e entornou-se de chuva pesada, para, talvez, não poderem se ver
novamente; mas ela, em sua imensa vontade, apesar de levar uma amiga, foi até o
portão do parque, que já estava fechado devido ao horário. Conversou com o
guarda explicando que esperava o homem que estava acampado lá, mas como a chuva
ainda caía, ela percebeu que ele não desceria para encontrá-la, então ela pediu
ao guarda para subir até o camping para ver o que estava acontecendo. O guarda
permitiu a entrada e assim ela foi.
Sua
amiga, loira, baixa, magra, de pele clara ria com a situação e visualizava alguém
pelo fato dela ter comentado como ele era. Então chegaram onde estava acampado,
um nevoeiro denso começou a se formar e a chuva continuava mais amena.
Ela
deu a volta com o carro estilo perua, de cor prata, e parou na rua acima do
camping e começaram a gritar seu nome para que ele atendesse ao chamado. Foi
então que de cima, em meio à chuva e nevoeiro elas chamaram para que ele viesse. Porém ele dizia que já nem queria sair e pelo fato da
chuva ele nem desceu até a entrada do parque. Foi assim que, depois de algum
tempo elas conseguiram convencer ele a encontra-las na entrada do camping, um
pouco mais abaixo de onde o carro estava.
Desceu
então o carro até a entrada, aonde, em meio a poças dágua, ele veio ao encontro
das duas. Em primeiro, ficou a conversar com a amiga e conhecer para depois ela
sair do lado do motorista para sentir ele de perto. Ele deu a volta por traz do
carro e veio para cumprimenta-la. Ela lhe deu os triviais beijos na face e
estava muito sem graça, mas altamente extasiada com aquela presença amorosa
daquele ser das estrelas.
Ele
a olhava de tão perto, densamente, amorosamente, carinhosamente tocava em seu
ombro através da porta do carro aberta, ela ao meio entre a abertura e ele,
tinha uma sensação de estar flutuando em um lugar desconhecido. Sua amiga não
parava de falar querendo bem ao fundo saber se este homem era de verdade ou se
ele tinha compromisso com alguém. Quando ela o viu perguntou “você é um Santíni”?
A
amiga dela falou que os “Santínis” são seres que não são desse mundo, vêm de
outro planeta, outro lugar e são raros os encontros deles com os humanos. E ela
percebeu que estava tendo um encontro totalmente irracional, intangível e
jamais poderia esquecer o que estava passando naquele momento. Então perguntou
a ele novamente se desejava sair com elas, mas ele não quis. Então ela não
podia fazer mais nada a não ser experimentar o gosto desse ser espiritual,
apenas ali, onde ninguém consegue tocar, na alma. Sua percepção estava aguçada
e cruelmente feliz, mas sabia que o momento passaria e então se lembrou do
grande amor de toda sua vida, a sensação era idêntica, exata, no mesmo espaço
de tempo ilimitado, onde a vibração é só feita de amor.
Refletiu
ela sobre a vida e a quantidade de pessoas que são fortuitamente pares nesta
existência e que quantas vezes ela pensou existirem mais almas gêmeas que
comumente uma só. Foi assim que sua amiga também comentou depois acreditar da
mesma forma.
Mas
ele, que ficou para traz, após a descida do carro, olhava e sintonizava com a
vibração espiritual dela. O carro descia devagar, pois o nevoeiro era denso
demais para ser verdadeiro. Parecia que o céu estava no chão, pois quase não
conseguia ver os paralelepípedos e a floresta numa rua estreita.
Apesar
de ele ter dado o contato a ela, não existia nenhum vínculo para eles novamente
se encontrarem. Ela tentou telefonar, mandar mensagens, e-mails e nada
aconteceu da parte dele, nenhum contato. Ela e a amiga acreditam ser ele um ser
fora do comum deste planeta, um “Santíni”.
Interessante duas pessoas acreditarem que possa haver na vida mais que uma alma gêmea. Eu acredito, seja sensual ou amiga. Indo para o segundo capítulo...!
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