VIAJANTE DO AMOR - PARTE 3

INFÂNCIA


               Num sublimal desempenho de gotículas banhando o vidro da cozinha, ela lembrava-se de muitos momentos de sua vida e escrevia, na satisfatória vontade de ser, um dia, reconhecida como escritora.
                Em suas ternas e meigas palavras, saudava todos os amores de sua vida, descrevendo pedaços de passagens, que escolhidas, lhe causaram grande aprendizado. Então reuniu, num escrito, todos os romances que a vida lhe trouxera, dando-lhes vida.
               Quando nova, em idade muito tenra, estava ela sentada num banco da escola, quando lhe veio ao lado um menino, entregando-lhe um embrulho, um livro de presente. Ela, em ápice momento, descobriu-se amada pelo olhar oposto.
               Dissolveu então, em sua passarinha pequenina, uma vontade escondida, que delimitava sua aptidão de uma excitação, por ser criança ainda. Mas sua libido, sentida, fez-lhe escorrer pelo meio das pernas, suave e quente água, onde borbulhava certeira a paixão incontida ao seu primeiro amor da infância.
               O chão ficara totalmente entumecido pelo quente xixi que descera ardendo sua virginal coloração de menina. O rubor em suas faces denunciou-lhe o ato, que não contido chamou atenção da professora, que a encaminhou (sem dizer nada) ao lado de fora da sala num ato de caridade dizendo-lhe que sua avó, que trabalhava na escola, a chamara.
               Quando saiu da sala, muito tímida, com medo, foi ao encontro de sua avó, que fazia merenda para as crianças. Então, num silencioso ato, sem falar nada, sua querida vozinha percebera que estava com a saia da ensopada e totalmente molhada.
               A professora lhe chamou e explicou o que acontecera em sala de aula e então sua vozinha lhe disse que não devia ficar envergonhada de pedir para ir ao banheiro, que era algo natural quando se estava estudando. Ela somente fez chorar envergonhada com o que lhe acontecera e sua professora mandara seu material de escola para que fosse para casa, pois não haveria condição dela retornar depois da poça deixada em sala.
             Sua avó a encaminhou para casa, que ficava há um quarteirão da escola,  entregou-lhe o material, juntamente com o livro que estava contido dentro do pacote de presente que o menino lhe deu.
               Ela, totalmente desconectada e triste pelo acontecido, foi levada até o portão da escola pela sua avó e varou rua afora sem olhar para nada. Quando, num rompante de corrida na estradinha de paralelos do bairro afastado que beirava um rio, passou com sorte, por cima de uma cobra preta que atravessara a rua exatamente naquele momento em que saia da escola numa situação constrangedora e libidica.
               Sua avó ao longe viu e lhe gritou espantada e feliz pela sorte de a cobra não ter sido pisada nem ter lhe mordido. Pedindo-lhe que tivesse mais atenção na passada e olhasse para onde andava. Então ela correu para casa entrando e indo em direção ao banho.
               E no banho, sentindo ainda o ímpeto do primeiro orgasmo infantil se deixou viajar mentalmente pela paixão ao menino que lhe dera o livro. Mesmo sem saber o que acontecia, sentia algo diferente em si. Quando saiu do banho, foi ao quarto onde colocara seu material se encantar com a leitura do presente de amor do menino.
               E quando sua mãe soube lhe repreendeu quando chegava atrasada em casa, por conta da paixão infantil que lhe atormentava. Então, quando certo dia,  ela ficou até mais tarde vendo os meninos jogarem futebol no campinho da escola, sua mãe foi-lhe buscar enraivecida. Levou-a pelo braço e disse-lhe algo que alterou completamente a visão lúdica.
               Sua mãe atentou a hipótese que jamais lhe passara pela cabeça como criança e nem ao menos podia alcançar a idéia ainda, mas que ao leve toque mental fluiu como antena ao início de masturbação que ela jamais poderia decifrar e entender.
               Ela ouviu atenta e com medo o que sua mãe dizia, falando que os meninos ficavam até tarde jogando na escola eram maus e que podiam querer brincar enfiando o pauzinho nela e que ela ficaria machucada se isso acontecesse.
               Apesar de não saber o que significava, ela sentiu algo experimental na sua libido quando sua mãe falara “enfiando o pauzinho”, então sentiu ímpeto, pela primeira vez, em se tocar e sentir prazer, mesmo que desconhecendo o que acontecia e sabendo ser algo que não deveria ser comentado com ninguém. Após o acontecido ela sempre se lembrava das palavras de sua mãe e dava vontade de se tocar e se masturbar, mesmo sem saber o que era exatamente aquilo que ocorria.

Comentários

  1. Que bom que o infeliz argumento da mãe tenha causado curiosidade em vez do medo. Ah! Como poucas pessoas percebem o quanto é delicada esta fase de descoberta da sexualidade! Qualquer abordagem aparentemente tola ou fato de simples de constrangimento, pode repercutir de forma tão negativa por uma vida inteira... Valeu a boa intuição infantil, que acredito existir até mais nas crianças, pois que são menos contaminadas...

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