VIAJANTE DO AMOR - Parte 14
SINERGIA
A brisa aquecia o ventre dela nas entrelinhas do abraço amarrotado que a envolvia naquele apartamento, que nem dele era, mas era barulhento dentro da cabeça daquela mulher, por estar num lugar nem dele, nem dela. Disse ele ser o apartamento do um pai de um amigo, que lhe emprestou para passar a noite.
Como ele sempre estava viajando e entrara na vida dela de uma forma singular, como um paraquedas colorido, não poderia deixar de estar com ele e compartilhar da sua presença naquele instante. Tinham uma conexão espiritual intensa demais. Muitas vezes quando um pensava no outro, a conexão acontecia: um encontro na rua, um telefonema ou algo semelhante.
Dizem que as almas gêmeas fazem esse tipo de sinergia. Porém, como poderiam saber se o que acontecia era real ou fictício? Estavam buscando, na singela certeza, encontrar o que ficou perdido ou apenas experimentar aquela sensação fascinante de sintonia que tinham.
Durante alguns anos ficaram cumplices desse amor imparcial. Experimentavam uma vibração muito diferente de todas as relações que esse mundo comporta. Ela não poderia saber se era real ou experimental. Era fascinante como as coisas aconteciam com eles, e podemos dizer, que implacável é sempre o mover de quem tem essa ligação de alma.
Certa vez, ela caminhando, foi na padaria que ficava na rua acima, uma quadra depois da sua casa, comprar pão. Seu pensamento vibrava no coração daquele que tanto a fazia bem, a qualquer hora e em qualquer lugar, só pela presença dele que aquecia seu coração e a fazia tremular inteiramente na sua alma. Entrou na padaria e comprou o pão. Estava no seu destino, sentia em seu coração uma pulsação diferente. Quando saiu do estabelecimento deu de frente com um carro azul estacionando na sua frente, naquele momento de caminhar até a padaria. Os seus passos sagrados a levaram naquele instante e naquele local e estavam destinados ao encontro, quando, saindo com os pães, lá estava ele saindo do carro na sua frente. O homem abençoado, que movia seus pensamentos, com paz e muito amor estava bem perto dela e nos seus pensamentos.
O mais interessante é que nos momentos que eles se encontravam nessa vida não precisavam falar muito, se entendiam no olhar, pelos sentidos mais puros de alma que poderiam ter. A sensação que ela tinha era de algo além do plano físico, como um encontro de alma, um cruzara o destino do outro. Mas o que aconteceria depois?
No dia em que ele foi apresentado a ela por uma grande amiga, no instante que ela o viu, sentiu que existiria um entrosante destino pois seu coração vibrava fortemente. Talvez fosse coisa da cabeça dela, pensava. Mas acabara de se separar de um casamento falido desde o início, fadado a dar errado. Estava sozinha e procurava encontrar foco nos projetos que tinha para vida profissional. Nem estava esperando ninguém entrar no seu mundo naquele momento. Mas aquele homem tocou-lhe sem tocar na sua pele, ele tocou em sua essência.
Uma outra amiga chamou-lhe, no final de semana seguinte aquele encontro, para sair. Foram em um local que era muito frequentado e tinham vários bares, acontecendo música ao vivo e sempre lotado de pessoas. Animadas para balada depois de uma atuação maravilhosa que fizeram no teatro, entraram em cena naquela noite para curtir a vida.
Era verão e ela vestia um vestido transpassado estampado com tonalidades marron e laranja, tipo jardineira, com uma blusa de malha azul marinho por dentro e usava uma sandália baixa preta de couro. Seu cabelo castanho escuro batia depois do ombro encacheando nas pontas. Sua amiga usava um jeans claro com uma blusa branca e uma sandália baixa de couro, tinha cabelos longos, castanhos bem claros. As duas estavam a deriva pois a amiga dela também saíra de um casamento falido.
O local onde foram tinham vários bares com música ao vivo. Então resolveram entrar no que estava mais badalado e com muita gente. Quando ela entrou, seu coração gelou de alegria pois lá estava novamente seu parceiro espiritual tocando e cantando a música, envolvendo sua alma de luz. Ela pediu um refrigerante, mas fingiu que não o havia visto pois sentiu-se encabulada e tímida demais e saiu. Mas seu olhar captava o olhar dele que a seguiu atentamente. Sua amiga, sem perceber nada, fez o mesmo e foram as duas tomar "refri" do lado de fora, sentadas num paralelo de canteiro do local em frente ao bar.
Chegou perto delas um amigo conhecido, chamando sua amiga para conversar um pouco mais afastado. Com delicadeza, foram conversar mais a frente. Ela, ficou ouvindo a música, de olhos fechados, espiritualmente abertos, daquele que vibrava sua alma. Porém tudo silenciou e ela simplesmente continuou com os olhos fechados sentindo que ele viria até ela. Foi como um flash mental, igual ao dejavu. Ela viu exatamente o que estava prestes a acontecer.
Ainda de olhos fechados, sentiu alguém se aproximando sentando ao seu lado e assutou-se pois havia visto em seu pensamento a cena. Era ele que pedia licença para sentar de seu lado. A frequência entre eles era tão alta que a conversa foi espiritual e perfeita. Eles sentiam o estado vibracional diferenciado, com ação divinal quando se aproximavam um do outro. Ele não entendia,queria estar mais com ela. Pediu que ela o esperasse terminar seu show para poderem conversar melhor. Ela sabia exatamente o que sentia espiritulamente.
A ligação de alma é algo instantâneo, onde só quem vive percebe o sentido e o aprendizado. A renúncia estava próxima a acontecer mas ela não poderia imaginar. Pois ele estava livre na emoção espiritual quântica, mas na vida física ele tinha compromisso.
Quando ele terminou o show, guardando seus instrumentos, a chamou para dar uma volta no seu carro azul turqueza. Ela não conseguia, sequer, dizer não, pois a vibração espiritual entre eles era altíssima.
Então, era um dia de lua cheia e ele a levou para uma rua alta para verem o lual. Saíram do carro e observaram o céu, a lua e o nevoeiro chegando. E num segundo, ela distraída, ele a abraçou repentinamente, apertando-a contra seu corpo numa junção que não tinha explicação. Ali, perto do céu, com a natureza vibrando, uniram-se em alma e a chuva começou a cair dando um sinal aos dois. Estava na hora de ir embora.
Mas não ficou por aí aquele caminho entre eles, pois ela o sentia e ele a queria, mas não podiam estar juntos. Parecia um encontro ingrato, por vezes, mas intenso ao estarem tão perto um do outro. E nas tantas vezes que estiveram, um na procura do outro, perseguiam estrelas e borboletas a pescar nas suas vidas. Eles se pertenciam, mas não sabiam, estavam a deriva. Precariamente desconectados, porém inteiramente espiritualizados para estarem juntos.
Ele se foi e ela ficou com a mensagem vívida dentro de si. O caminho dela foi intenso, com variações e repentinas decepções. O caminho dele estava na música, em si e na viagem de seu mundo espiritual. Ela se deteve, perseguindo seus sonhos e ele também, intensamente fazendo o mesmo.
Os intantâneos momentos ficaram cravados, como um galope de um cavalo, em suas essências, de forma singular e perfeita. Não chegaram a uma junção corporal de vida, mas se uniram em alma naquele instante distante do mundo anterior a este.
A beleza desse encontro permaneceu nos dois corações, que hoje distantes, vagam suas vidas na singela certeza de que um dia, em alguma dimensão, estarão novamente se encontrando.
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